EXTRA, EXTRA, EXTRA!

“Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.”

Clarice Lispector

SONETO CCLVII [QUAL TEM A BORBOLETA POR COSTUME]

“Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,
Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.
Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;
Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.”
Luis de Camões

A VIGÍLIA DO HERO

“Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida.
E no entretanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie…

Não sei porque te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te… estar ao pé de ti…
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me!

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer… inquieta…
Ah, com que poderei contentá-la jamais?
Quisera calmá-la na música…
Ouvir muito, ouvir muito…
Sinto-me terna… e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável!
Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa…
Ah, se eu ouvisse a tua voz!”

 

Manuel Bandeira

VICEVERSA

“Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.”

 

Mario Benedetti

A FLOR E A NÁUSEA

“Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

 

Carlos Drummond de Andrade

DESCULPE O TRANSTORNO, PRECISO FALAR DA LAYLLA

“Conheci ela no treinamento de uma escola de inglês. Essa frase pode parecer um saco se você imaginar o professor ensinando o verbo ‘to be’ numa classe do terceiro colegial. Mas o treinamento em questão era uma nova experiência para ambas –onde todos tinham habilidades, menos nós duas. Ela ia se tornar professora. Minha mãe era professora. Eu não era professora, mas estava fazendo o treinamento para me tornar professora. A Laylla estava lá. Falando e rindo. Nunca vou me esquecer: ‘Nossa, ser canhota é difícil, né?’ ao preencher uma ficha na recepção, e logo  ‘Work, Study, Play’, do primeiro capítulo do livro Amaze 1 .

Quando os demais professores estavam sérios, ela ficava sorrindo. Quando eles terminavam no tempo determinado, ela se confundia e gargalhava. Quando eles se confundiam também, ela os encorajava. O sorriso, sempre grande e lindo, deixava claro que ela não fazia ideia do que estava fazendo. Foi amizade à primeira vista. Só pra mim, acho.

Passamos algumas madrugadas conversando e ela, como sempre, ouvindo meus choros e me mandava dormir (risos). De lá, migramos pro Whatsapp. Do Whatsapp, pro Facebook.

Começamos nossa amizade quando ela tinha 26 anos e eu 16, mas parecia que a vida começava ali. Fazíamos muitas piadas e tínhamos ataques de risada. De algumas, contávamos e ríamos várias vezes. Nos atrasamos em alguns compromissos porque a conversa tava boa. Escolhíamos decorações de casamento sem nem mesmo estar namorando ou se chegaríamos a nos casar. Fizemos uma dúzia de amigos novos e junto com eles, aniversários (alguns surpresa). Tiramos mais de 50 fotos só nós duas –perdi tudo, confesso. Sofremos com as exs de nossos namorados, rimos com tombos. Durante o treinamento, viajamos do Inglês 200h até o Shopping Interlagos dividindo o fone de ouvido para almoçar qualquer coisa. Das dez músicas cristãs que eu mais gosto, sete foi ela que me mostrou através de um CD. As outras três eu mostrei pra ela. Aprendi sobre a bíblia e também o que era ser extrovertida em público.

Um dia, deixamos de nos falar. E não foi fácil. Sem a outra saber, choramos mais que no final de ‘How I Met Your Mother’. Mais que no começo de ‘Up’. Até hoje, me pergunto como teria sido se nossa amizade nunca tivesse acabado. Em momentos de tristeza, felicidade e viagens eu me perguntava: cadê ela? Parece que, para sempre, ela vai fazer falta. Se ao menos tivéssemos deixado o orgulho de lado e ter pedido nossa amizade de volta, eu penso.

Há alguns meses, pela primeira vez, recebi uma mensagem dela –não foi por acaso uma grande amizade. Achei que fosse chorar tudo de novo. E o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter minha melhor amiga de volta. E de ter a oportunidade de demonstrar o meu carinho e amor de irmã por ela –e tantos outros sentimentos. Não falta nada.”

 

Gregorio Duvivier, adaptado por Thaíse Alves

TESTAMENTO DO POETA

“Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, – hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!….
Basta-me o gesto de contar um verso.”

 

José Régio

DIALÉTICA

“É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste…”

 

Vinicius de Moraes

SOBRE O AMOR, ETC

“Dizem que o mundo está cada dia menor.

É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.

Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.

Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.

Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.

Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranqüilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.

Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.

Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.”

 Rubem Braga

CUÉNTAME CÓMO VIVES (CÓMO VAS MURIENDO)

“Cuéntame cómo vives;
Dime sencillamente cómo pasan tus días,
Tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
Y las confusas olas que te llevan perdido
En la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives.
Ven a mí, cara a cara;
Dime tus mentiras (las mías son peores),
Tus resentimientos (yo también los padezco),
Y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres.
Nada tuyo es secreto:
La náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
La locura imprevista de algún instante vivo;
La esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres,
Cómo renuncias —sabio—,
Cómo —frívolo— brillas de puro fugitivo,
Cómo acabas en nada
Y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.”

 

Gabriel Celaya

“Assim, minha tristeza voltando sempre, e me achando mais perdida aos meus olhos – como a todos os olhos que quisessem me encarar, se eu não tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos! – eu tinha cada vez mais fome de sua bondade. Com seus beijos e abraços amigos, era mesmo um céu, um escuro céu, onde eu entrava, e onde gostaria de ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já eu me acostumava. Eu nos via como duas boas crianças, livres para passear no Paraíso de tristeza.”

Arthur Rimbaud

FARTURA E CARÊNCIA

“Mas o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e não  se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não são. Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura – é fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? – seria a raiva. Não um tipo de raiva amorosa que existe. Mas a raiva simples e violenta. Quanto mais violenta, melhor. Raiva dos que não sabem de nada. Raiva também dos inteligentes do tipo que dizem coisas. Raiva do cinema novo, por que não? E o outro cinema também. Raiva da afinidade que sinto com algumas pessoas, como se já não houvesse fartura de mim em mim. E raiva do sucesso? O sucesso é uma gafe, é uma falsa realidade. A raiva me tem salvo a vida. Sem ela o que seria de mim? Como suportaria eu a manchete que um dia saiu no jornal dizendo que cem crianças morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa. E tenho raiva de sentir tanto amor. Há dias que vivo de raiva de viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta. Bem sei que isso vai passar, e que a carência necessária volta. Então vou querer tudo, tudo! Ah como é bom precisar e ir tendo. Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter. Mas ter facilmente, não. Porque essa aparente facilidade cansa. Até escrever está sendo fácil? Por que é que eu escrevia com as entranhas e neste momento estou escrevendo com a ponta dos dedos? É um pecado, bem sei, querer a carência. Mas a carência de que falo é mais plenitude do que essa espécie de fartura. Simplesmente não a quero. Vou dormir porque não estou suportando este meu mundo hoje, cheio de coisas inúteis. Boa-noite para sempre, para sempre. Até sábado que vem. E não me respondam: não quero ouvir a voz humana. E se suporto a minha voz se despedindo é porque ela piora de muito a minha raiva. Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam.”

Clarice Lispector

A FELICIDADE

“Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor”

Vinicius de Moraes

SINO LUNAR

“Dibuja la luna su cara
En la superficie del agua,
O deambula solitaria.
Por valles
O nevadas montañas.

Su sino la persigue:
Ser única
En las noches estrelladas
Y etérea
Al despuntar
La madrugada.

Luna sonámbula,
Tenue luz del alba,
Por unos días
Descansa
Te veré nueva
Como espectro del alma.”

 

Marcelo D. Ferrer

TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

“A poesia está guadarda nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”

Manoel de Barros

A VIGÍLIA DE HERO

“Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida. E no entanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie…
Não sei por que te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te… estar ao pé de ti…
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me.
É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!
Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer… inquieta…
Ah, como poderei contentá-la, jamais!
Quisera calmá-la na música… Ouvir muito, ouvir muito…
Sinto-me terna… e sou cruel e melancólica!
Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável! Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa… Ah, se eu ouvisse a tua voz!”

Manuel Bandeira

NÃO AMEIS À DISTÂNCIA

“Em uma cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há uma pessoa, e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar em segredo, como plantinha de estufa, um amor a distância? Andam em ruas tão diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e, além disso, que se diriam? Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu a semana passada… e as semanas passam de maneira assustadora, os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando “Outra semana!” e as quartas já têm um gosto de sexta, e o abril de “de já hoje” é mudado em agosto… Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muitas vez ficamos como patetas a ver uma linda estrela jurando pela sua existência — e no entanto há séculos ela se apagou na escuridão do caos, a sua luz é que custou fazer a viagem. Direis que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que ela nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!
Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pelo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui — e isso não há. Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a testa recebe na esquina, tudo o que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida de todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está-se gastando, perdendo seu poder emissor a distância. Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos…
Não ameis à distância, não ameis, não ameis!”

Rubem Braga

O MARCO DE 2005

“Foi na 5ª série que o  conceito de marcos históricos me foi apresentado: a Reforma Protestante em 1517, a Queda da Bastilha em 1789, entre outros. Assim como a história do mundo, a vida de cada pessoa também é definida e modificada por marcos. E este foi o meu:

Minha família é natural de Campo do Meio, localizada interior de Minas Gerais. Uma cidade pequena, cheia de montanhas, repleto de natureza, onde só se vê verde ao redor. Um povo da roça, fechado, que não gosta muito de contato, só anda descalço e realmente faz parte daqueles mineiros que comem pão de queijo o dia todo. Pura simplicidade. Prédios só são vistos quando vão à cidade vizinha, que tem o triplo de habitantes que a deles: 30 000. Quando vão para lá, ficam maravilhados e assustados ao ver tantos carros na rua, grande movimento, buzinas e barulhos desconhecidos.

Parece exagero, mas quando moramos em cidades tão isoladas, percebemos o quão perigosa e mal vista é a cidade de São Paulo. As tragédias e delitos ali cometidos são cócegas comparados à gravidade que sofremos em ‘Sampa’, como: peão arranca a sua própria perna com o machado ao tentar cortar o tronco de uma árvore, rapaz perde controle ao atropelar boi e acaba em morte, etc.

Minha mãe, já solteira, em meados de 2002, decidiu vir para São Paulo com minhas irmãs e eu em busca de oportunidades de trabalho. Claro que o assunto deu o que falar! Escutavam-se os boatos na cidade da filha rebelde, e a minha avó, quase ‘caduca’, gritando de forma dura:

– Onde já se viu? Mãe solteira aos 47 anos querendo sair de seu ninho para morar na Cidade Cinza. É pedir para morrer mesmo! Eu, nesta idade, que não cuidar das pirralhas quando na primeira bala perdida você cair dura no chão!

Decidida e sem ouvir nenhuma crítica, Madá (como era conhecida) veio para São Paulo. Mas que alegria! Pela primeira vez na vida sentiu que fizera algo que realmente desejava sem se preocupar com as fofocas do povo.

– Agora sim, vou viver em paz! Pensava ela, contente e entusiasmada.

Pouco depois de chegar a São Paulo, conseguiu um serviço de empregada doméstica e ali se estabilizou. Durante a semana, Madalena trabalhava na casa da tia Regina e do tio Celso: família muito boa e que a acolheu com suas filhas de braços abertos. Enfim, estava ela muito feliz pelo desafio realizado e por ter conseguido uma segunda família que a recebera de forma tão gentil.

Vinda de família muito humilde e bem católica até o último fio de cabelo, Madá rezava o terço todas as noites e aos sábados ao amanhecer, ia comigo à igreja do Pe. Marcelo Rossi, seu ídolo.

Além das 3 filhas, Madá tinha um sobrinho ao qual era muito apegada. Rafael tinha 15 anos quando ela deixou a cidadezinha, mas jurava que um dia iria atrás dela. Não demorou muito e, aos seus 18 anos, Rafael resolveu fazer suas trouxas e dizia ir embora. Tia Romilda, mãe do Rafa, que era a mãe coruja em pessoa, surtou e foi aquele barraco dramático na família Machado! Tendo uma família muito protetora e de cabeça muito fechada, ninguém queria deixar o caçula ir para a cidade mais perigosa do Brasil, senão do mundo! Com certeza seria sequestrado e picotado na saída da Rodoviária Tietê. Vovô Nico já mudo e bem enrugado era o único que não expressava sua opinião, só balançava a cabeça. Rafael, assim como Madá, não queria saber: foi-se até a Estação Central e pegou o primeiro bonde (como diziam lá) para São Paulo com a ideia de estudar em uma faculdade e finalmente ter uma nova vida de oportunidades. Para o contentamento de todos, chegou são e salvo para o Natal chuvoso na capital paulista. Para Madá foi uma alegria imensa ver seu sobrinho crescido e passando Natal em sua companhia.

Lembro-me claramente: Rafa era a sombra da Nena (como eu a chamava) e ela lhe ensinava todas as rezas e preces. Por causa disso, tornou-se o segundo maior fã do Padre Marcelo. Iam para todas as missas e procissões.

No aniversário da minha mãe (23/01/2005), decidimos todos acompanhá-la a missa com ela. Tia Regina e tio Celso armaram uma festa surpresa e usamos qualquer desculpa para eu ali ficar para ajudá-los a organizar tudo. O que não esperávamos, é que a surpresa fora nossa: ao atravessar a faixa de pedestres na ida à igreja, um carro desgovernado não parou no farol vermelho. Somente ela foi atingida e jogada para o outro lado da Avenida Teotônio Vilela, chegando a falecer 5 minutos antes da ambulância chegar.

Um marco histórico pontua o fim e o início de uma era; a morte da Madá foi o fim e o início da Thaíse.”

Thaíse Alves, 2008

A ALMA IMORAL (trecho)

“Cada vez que fazemos o esperado, reforçamos um padrão humano automático de torpor. Existe em nós uma tendência de querer agradar à nós, aos outros e à moral de nossa cultura. Com isso vamos gradativamente nos perdendo de nós mesmos. E o despertar é a capacidade de perceber situações horríveis em nossas vidas, tanto no plano particular como no social e cultural. desse ‘horror’ surge uma nova forma de ser, uma nova forma de ‘família’, uma nova forma de ‘propriedade’ e uma nova forma de ‘tradição’. A imutabilidade do ser e da família, da propriedade e da tradição é a proposta desesperada de negar a natureza humana, que é mutante e requer novas formas de’moral’.” (ps. 64/65)

Nilton Bonder

MARCHA DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz.”

Vinícius de Moraes e Carlos Lyra

SORRI

“Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz.”

Charlie Chaplin

EM BUSCA DO OUTRO

“Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é o outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.”

Clarice Lispector

CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!

José Régio

CHEGA DE SAUDADE -DEDICADO

“Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim

Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim”

Vinicius de Moraes

Para minha eterna nena

AH! OS RELÓGIOS

“Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…”

 

Mario Quintana

A HEART LOST AND DISCOVERED

“If there is no full moon in the sky,
How is it possible to see the reflection in the pond?
If the tiger has sharp claws,
How is it possible not to use them?
How could we bake our bread
If there were no fire?
At the death of the Karmapa we become softened and devotional.
It is true.
Those who have never cried in their lives, cry this time,
And shed tears that will water the earth
So we can produce further flowers and greenery.”

 

Chogyam Trungpa

MÃE

“Lembra-me, Mãe querida, a glória que me deste,
A alegria do lar no lençol de cravinas,
A mesa, o livro, o pão e as canções cristalinas,
As preces de ninar, no humilde berço agreste.

Ao perder-te, no mundo, o carinho celeste,
Vendo-te as mãos em cruz, quais flores pequeninas,
Fui chorar-te, debalde, ao pé das casuarinas,
Buscando-te a presença entre a lousa e o cipreste!…

Entretanto, do Além,caminhavas comigo,
Vinhas, a cada passo, anjo piedoso e amigo,
Guardar-me o coração na fé radiante e calma.

E, quando a morte veio expor-se à noite escura,
Solucei de alegria, em preces de ternura,
Em te revendo a luz, conduzindo minha’alma!…”

Abílio Barreto

COISA AMAR

“Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.”

Manuel Alegre

MEU ANO NOVO

Todo o dia é ano novo.
Todo dia é ano novo
Entre a lua e as estrelas
num sorriso de criança
no canto dos passarinhos
num olhar, numa esperança…
Todo dia é ano novo
na harmonia das cores
na natureza esquecida
na fresca aragem da brisa
na própria essência da vida.
Todo dia é ano novo
no regato cristalino
pequeno servo do mar
nas ondas lavando as praias
na clara luz do luar…
Todo dia é ano novo
na escuridão do infinito
todo ponteado de estrelas
na amplidão do universo
no simples prazer de vê-las
nos segredos desta vida
no germinar da semente.
Todo dia é ano novo
nos movimentos da Terra
que gira incessantemente.
Todo dia é ano novo
no orvalho sobre a relva
na passarela que encanta
no cheiro que vem da terra
e no sol que se levanta.
Todo dia é ano novo
nas flores que desabrocham
perfumando a atmosfera
nas folhas novas que brotam
anunciando a primavera.
Você é capaz, é paz
É esperança
Todo dia é ano novo
no colorido mais bel
odos olhos dos filhos seus…
Você é paz, é amora alegria de Deus.
Não há vida sem volta
e não há volta sem vida
no ciclo da natureza
neste ir e vir constante
No broto que se renova
na vida que segue adiante
em quem semeia bondade
em quem ajuda o irmão
colhendo felicidade
cumprindo a sua missão.
Todo dia é ano novo…portanto…feliz ano novo todo dia!

 

Desconhecido

A UM POETA

“Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimigo do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.”

Olavo Bilac

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”

Clarice Lispector