O MARCO DE 2005

“Foi na 5ª série que o  conceito de marcos históricos me foi apresentado: a Reforma Protestante em 1517, a Queda da Bastilha em 1789, entre outros. Assim como a história do mundo, a vida de cada pessoa também é definida e modificada por marcos. E este foi o meu:

Minha família é natural de Campo do Meio, localizada interior de Minas Gerais. Uma cidade pequena, cheia de montanhas, repleto de natureza, onde só se vê verde ao redor. Um povo da roça, fechado, que não gosta muito de contato, só anda descalço e realmente faz parte daqueles mineiros que comem pão de queijo o dia todo. Pura simplicidade. Prédios só são vistos quando vão à cidade vizinha, que tem o triplo de habitantes que a deles: 30 000. Quando vão para lá, ficam maravilhados e assustados ao ver tantos carros na rua, grande movimento, buzinas e barulhos desconhecidos.

Parece exagero, mas quando moramos em cidades tão isoladas, percebemos o quão perigosa e mal vista é a cidade de São Paulo. As tragédias e delitos ali cometidos são cócegas comparados à gravidade que sofremos em ‘Sampa’, como: peão arranca a sua própria perna com o machado ao tentar cortar o tronco de uma árvore, rapaz perde controle ao atropelar boi e acaba em morte, etc.

Minha mãe, já solteira, em meados de 2002, decidiu vir para São Paulo com minhas irmãs e eu em busca de oportunidades de trabalho. Claro que o assunto deu o que falar! Escutavam-se os boatos na cidade da filha rebelde, e a minha avó, quase ‘caduca’, gritando de forma dura:

– Onde já se viu? Mãe solteira aos 47 anos querendo sair de seu ninho para morar na Cidade Cinza. É pedir para morrer mesmo! Eu, nesta idade, que não cuidar das pirralhas quando na primeira bala perdida você cair dura no chão!

Decidida e sem ouvir nenhuma crítica, Madá (como era conhecida) veio para São Paulo. Mas que alegria! Pela primeira vez na vida sentiu que fizera algo que realmente desejava sem se preocupar com as fofocas do povo.

– Agora sim, vou viver em paz! Pensava ela, contente e entusiasmada.

Pouco depois de chegar a São Paulo, conseguiu um serviço de empregada doméstica e ali se estabilizou. Durante a semana, Madalena trabalhava na casa da tia Regina e do tio Celso: família muito boa e que a acolheu com suas filhas de braços abertos. Enfim, estava ela muito feliz pelo desafio realizado e por ter conseguido uma segunda família que a recebera de forma tão gentil.

Vinda de família muito humilde e bem católica até o último fio de cabelo, Madá rezava o terço todas as noites e aos sábados ao amanhecer, ia comigo à igreja do Pe. Marcelo Rossi, seu ídolo.

Além das 3 filhas, Madá tinha um sobrinho ao qual era muito apegada. Rafael tinha 15 anos quando ela deixou a cidadezinha, mas jurava que um dia iria atrás dela. Não demorou muito e, aos seus 18 anos, Rafael resolveu fazer suas trouxas e dizia ir embora. Tia Romilda, mãe do Rafa, que era a mãe coruja em pessoa, surtou e foi aquele barraco dramático na família Machado! Tendo uma família muito protetora e de cabeça muito fechada, ninguém queria deixar o caçula ir para a cidade mais perigosa do Brasil, senão do mundo! Com certeza seria sequestrado e picotado na saída da Rodoviária Tietê. Vovô Nico já mudo e bem enrugado era o único que não expressava sua opinião, só balançava a cabeça. Rafael, assim como Madá, não queria saber: foi-se até a Estação Central e pegou o primeiro bonde (como diziam lá) para São Paulo com a ideia de estudar em uma faculdade e finalmente ter uma nova vida de oportunidades. Para o contentamento de todos, chegou são e salvo para o Natal chuvoso na capital paulista. Para Madá foi uma alegria imensa ver seu sobrinho crescido e passando Natal em sua companhia.

Lembro-me claramente: Rafa era a sombra da Nena (como eu a chamava) e ela lhe ensinava todas as rezas e preces. Por causa disso, tornou-se o segundo maior fã do Padre Marcelo. Iam para todas as missas e procissões.

No aniversário da minha mãe (23/01/2005), decidimos todos acompanhá-la a missa com ela. Tia Regina e tio Celso armaram uma festa surpresa e usamos qualquer desculpa para eu ali ficar para ajudá-los a organizar tudo. O que não esperávamos, é que a surpresa fora nossa: ao atravessar a faixa de pedestres na ida à igreja, um carro desgovernado não parou no farol vermelho. Somente ela foi atingida e jogada para o outro lado da Avenida Teotônio Vilela, chegando a falecer 5 minutos antes da ambulância chegar.

Um marco histórico pontua o fim e o início de uma era; a morte da Madá foi o fim e o início da Thaíse.”

Thaíse Alves, 2008

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